Geração Cangru
A metáfora tem vindo a ser usada com frequência e traduz-se de forma simples: cada vez mais os filhos saem mais tarde de casa dos pais. Na base desta alteração de comportamento estão, dizem os sociólogos, o desejo de um conforto que não seria conseguido vivendo a sós, uma privacidade e liberdade dentro da casa paterna que antes não existia, a dificuldade em entrar no mercado de trabalho e os baixos rendimentos dos primeiros anos do emprego. Estes últimos factores alargam o âmbito desta “bolsa marsupial” e permitem incluir no espectro da geração canguru todos aqueles que, embora morando fora da casa dos pais, não adquiriram ainda a sua independência financeira.
Depois de terminado o curso, surge a preocupação de encontrar o primeiro emprego; e um dos problemas reside aqui: para muitos, a questão da empregabilidade surge na recta final da licenciatura e não antes da sua escolha. Não falta quem se esteja a formar sem saber porquê e para quê, vendo no curso uma forma de prolongar por alguns anos um estilo de vida que não teriam de outra forma e sustentando a esperança de que o diploma seja o passaporte para o mundo do trabalho. E, de facto, é-o muitas vezes. É preciso desmistificar a ideia de que um curso não abre portas, de que licenciados há muitos e de que o investimento num curso superior é tempo e dinheiro perdidos. Embora as estatísticas não abundem, os estudos indicam que os licenciados conseguem mais facilmente emprego do que pessoas com menos formação e que são, por norma, melhor remunerados. Mas, é claro, há cursos e cursos. Formam-se, anualmente, centenas de professores que não conseguem colocação. Na área das humanidades a falta de empregabilidade é gritante.
Para quem não encontra emprego, prosseguir os estudos é, por vezes, a solução encontrada. O resultado acaba por ser formação em excesso. Depois há o empreendedorismo, um conceito em voga. Mas, se é certo que o espírito empreendedor é independente da formação que se tem, não é menos verdade que os cursos que mais saídas profissionais oferecem são também os que estão mais voltados para o empreendimento.
Torna-se necessário, por um lado, que as instituições de ensino superior se empenharem em fornecer dados sobre a empregabilidade das formações que oferecem e, por outro, que universidades, politécnicos e governo definam mais claramente, à semelhança do que é feito noutros países, áreas prioritárias, de forma a que a formação ao nível do ensino superior esteja mais ajustada às necessidades do País e pondo fim à filosofia da formação “ em tudo por todos”. E, essencialmente, é preciso acabar com o espírito de tirar um curso (ou pós-graduação) na ausência de alternativa viável, uma situação de onde acaba por sair um indivíduo pouco formado. Afinal, frequentar um curso é uma oportunidade (única para muitos) de obter uma formação que se quer superior.

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